Havana parece ter saído de um bombardeio

As construções, embora muito bonitas, com seus arcos e colunatas, motivos decorativos e arabescos diversos nos parapeitos e fachadas dos edifícios, tudo dentro de um estilo que nos remete aos anos 50 e 60, revelam elevado grau de deterioração, o que nos deixa preocupados, pois certamente estamos no maior museu ao ar livre do mundo.

Um museu que conserva o espírito paisagístico de uma era, talvez não muito dourada, mas que ainda assim, guarda seus encantos: o glamour dos cassinos, o clima carregado dos ricaços esbanjadores vindos daquela parte mais opulenta do mais próximo país, do mais próximo continente, os Estados Unidos. Não seria muito dizer que, mesmo em ruínas, esta cidade conserva seu encanto.

O encanto que somente uma velha cidade pode ter. As velhas senhoras e as velhas cidades sempre têm algo em comum, a marca de uma certa dignidade. E tanto a cidade velha como a velha senhora deixam fluir, qual sangue perdendo-se nas veias, um tempo de resplendor e encanto. Com certeza, essa parte de Havana sempre será uma fonte de inspiração para os escritores, como o foi para quem escreveu Por quem os sinos dobram, Adeus às armas e as 27 mil palavras que formam o clássico O velho e o mar.

Talvez seja essa a melhor visão do que diferencia um país capitalista de um socialista, pré-queda do muro de Berlim. No primeiro, encontraremos uma preocupação muito evidente com a estética, com as aparências, os meios que possam atrair capitais externos, enquanto no segundo as obras estão camufladas na forma de programas sistematizados de erradicação do analfabetismo, na acessibilidade do público à educação e à saúde.

Prós e contras podem-se constatar tanto em um quanto em outro, e é no mínimo ingenuidade mostrar-se extremamente favorável a um sistema em detrimento do outro. Nesse contexto, vemos que os totalitarismos, os regimes de força, costumam eleger setores prioritários em seu desenvolvimento.

Se a União Soviética escolheu destacar-se no poderio militar e na tecnologia espacial, está evidente que Cuba escolheu a saúde e a educação. Infelizmente, os dois sistemas apresentam-se lamentavelmente “defeituosos” , como já antevia Bahá’u’lláh (1817-1892) em meados do século XIX.

E é reconfortante saber que agora, finalmente, nos damos conta da exatidão desse pensamento. Segundo Bahá’u’lláh, toda norma legal ou teoria política e econômica é concebida para proteger os interesses da humanidade como um todo, e – parece-me extremamente atual – não para que a humanidade seja crucificada a fim de preservar a integridade de alguma lei ou doutrina em especial.

A Unesco está patrocinando a restauração da Habana Vieja, que foi tombada pela ONU como patrimônio da humanidade. Não será uma tarefa fácil. Mas um turista acidental como eu bem poderia imaginar como será belo todo esse conjunto arquitetônico a que chamamos de Habana Vieja depois da tão necessitada restauração.

Fico feliz e surpreendido ao ver que as placas de restauração de toda essa parte antiga da capital cubana não registrarão como empreiteira uma construtora, se capitalista ou socialista, não vem ao caso, mas sim a Unesco. E concluo que em seu cinquentenário as Nações Unidas presentearam a humanidade com uma grande ideia: proteger bens artísticos, culturais e paisagísticos.

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