Várias viagens e muitas histórias para contar

O Mar Morto está abaixo da fortaleza de Massada. Em três diferentes anos, estive no Mar Morto. Para chegar lá, passamos por Jericó, observamos as bonitas e rechonchudas laranjas. Passamos pelo kíbbutz de Ein Gedi, com seu grande número de pessoas idosas, vindas principalmente da Alemanha. Sempre termino me enlameando todo com a famosa lama extraída do mar. E, obviamente, como qualquer turista, providencio um jornal para ser fotografado “sentado” no mar.

Realmente somos “inafundáveis ” no Mar Morto. Todas as vezes em que lá estive, havia sol e vento ao mesmo tempo. E risos, alegria, um ajudando o outro a se encher de lama, todos geralmente desconhecidos, e também alguém se oferecendo tirar a foto do recém-enlameado. Em 1998, foi a última vez em que mergulhei no Mar Morto. E passei um vexame.

Hospedado no Hyatt Dead Sea Hotel, não havia me dado conta de uma placa advertindo para que não se mergulhasse nas piscinas com águas do Mar Morto. Mergulhei. E pior. Abri os olhos. Uma sensação muito maior que a de desconforto foi a da falta do senso de ridículo.

A brisa do Nilo

Sensação de estar dentro de uma imensa pirâmide no Cairo é grandiosa. O ar, rarefeito, parece aprisionado no tempo Uma escadaria íngreme nos conduz em fila indiana ao coração da pirâmide. Tive o sentimento de estar atravessando algum portal do tempo. O despojamento das pirâmides, sua resistência aos muitos saques dos ingleses, franceses e egípcios ao longo dos últimos três séculos é bastante evidente. Que contraste de ainda reter no rosto a brisa soprando no

Nilo, a bordo de uma pequena embarcação chamada “pakula”! Imaginei estar em uma ampla varanda sobre o Nilo, ao estilo das casas das fazendas brasileiras. E o passeio de camelo pela imensa extensão de areia refletindo um sol que projeta imensas sombras sobre as pirâmides. As visitas às fábricas de perfumes e de papiros terminam impregnando-me a memória de aromas exóticos e pitorescos. A tradição egípcia de ensinar às novas gerações sobre a arte de tecer tapetes e outros tecidos merece também um lugar na memória. Isso tudo foi registrado em maio de 1988.

Cairo e milênios

Mistério da Esfínge desafia meus olhos, que buscam saciar-se com um pôr do sol que tenha o gosto dos milênios. Cairo combina a sensação do tempo que escoa com a da vida que permanece. Refletindo-se na areia, o sol parece outro e, como astro embriagado de tanta luz, já não consegue acompanhar a passagem do tempo. Cairo é a ampulheta que deixa séculos e milênios. O tempo sabe quando retomar a ampulheta à posição original, no momento em que o sol prepara-se para dormir.

A caminho da Índia

Em 1987, no voo das Bristish Airways, eu continuava o trajeto Londres-Déli. Logo na escala em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, minha máquina fotográfica foi apreendida. Passei por um interrogatório em clima declaradamente hostil: um funcionário árabe insistia em afirmar que eu era um palestino.

Ao retomar o voo, sobrevoamos os espaços aéreos do Irã e do Iraque enquanto ainda se encontravam em guerra. O comissário de bordo pediu que fechássemos as janelas e… teve início a projeção do filme TOP GUN (Ases Indomáveis), com muitos desastres aéreos. Foi o voo mais esquisito que fiz.

Buscar um rosto na multidão não é tarefa fácil em lugar algum. Mas uma multidão que caminha em ondas de movimentos sincronizados só poderia ser vislumbrada na Velha Deli. Ali as mulheres levam para passear saris vermelhos e verdes, em tons muito vivos e vibrantes, e os homens vagueiam com túnicas brancas, cinzas, marrons esmaecidos.

O conjunto de rostos, roupas e cores formam um movimento ondulante de cabeças humanas sopradas pelo vento do entardecer. Nenhuma multidão tem mais personalidade que esta que me enfrentou, estando eu na contramão, numa tarde cheia de mistério e magia. A magia e o mistério de existir e pertencer a uma mesma espécie: a humana.

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